Os meus poemas preferidos este livro:
FLORES
Alguns homens nem nisso chegam a pensar.
Tu pensaste. E ao chegar.
Disseste que me querias comprar flores
Mas não chegaste a comprar
A florista estava fechada. Ou hesitaste -
Hesitações que estão sempre a povoar
Cabeças como as nossas. Pensaste
Que eu até poderia não gostar.
Fizeste-me sorrir. E abracei-te então.
Agora só posso sorrir.
Mas, olhas, as flores que quase me compraste
Continuam a florir.
Wendy Cope
_________
QUERO-TE ÀS DEZ DA MANHÃ
Quero-te
às dez da manhã, e às onze, e às doze do dia. Quero-te com toda a minha
alma e com todo o meu corpo, às vezes, nas tardes de chuva. Mas às duas
da tarde, ou às três, quando me ponho a pensar em nós os dois, e tu
pensas na comida e no trabalho diário, ou nas diversões que não tens,
ponho-me a odiar-te surdamente, com a metade do ódio que guardo para
mim.
Mas logo volto a querer-te, quando nos deitamos e sinto que foste feita para mim, que de alguma forma mo dizem o teu joelho e o teu ventre, que as mãos me convencem disso, e que não há outro lugar onde eu venha, aonde eu vá, melhor que o teu corpo. Tu vens toda inteira ao meu encontro, e desaparecemos os dois um instante, metemo-nos na boca de Deus, até que eu te diga que tenho fome ou sono.
Todos os dias te quero e te odeio irremediavelmente. E há dias também, há horas, em que não te conheço, em que me és estranha como a mulher de outro. Preocupa-me os homens, preocupo-me comigo, distraem-me as minhas penas. É provável que não pense em ti durante muito tempo. Já vês. Quem poderia querer-te menos do que eu, meu amor?
Jaime Sabines
Mas logo volto a querer-te, quando nos deitamos e sinto que foste feita para mim, que de alguma forma mo dizem o teu joelho e o teu ventre, que as mãos me convencem disso, e que não há outro lugar onde eu venha, aonde eu vá, melhor que o teu corpo. Tu vens toda inteira ao meu encontro, e desaparecemos os dois um instante, metemo-nos na boca de Deus, até que eu te diga que tenho fome ou sono.
Todos os dias te quero e te odeio irremediavelmente. E há dias também, há horas, em que não te conheço, em que me és estranha como a mulher de outro. Preocupa-me os homens, preocupo-me comigo, distraem-me as minhas penas. É provável que não pense em ti durante muito tempo. Já vês. Quem poderia querer-te menos do que eu, meu amor?
Jaime Sabines
__________
BITÁCULA
Não conhece a arte de navegar
quem nunca navegou no ventre
de uma mulher,
remou nela,
naufragou e sobreviveu
numa das suas praias.
quem nunca navegou no ventre
de uma mulher,
remou nela,
naufragou e sobreviveu
numa das suas praias.
Cristina Peri Rossi
__________
FINAL
Quero acabar como uma gata,
beber leite em tigelas de barro,
comer peixe fresco e fetos.
Quero ser uma gata para me deitar
entre os livros que estás a ler,
deixar pêlos meus pela casa toda,
arranhar-te as pernas.
Quero acabar como uma gata,
para que me fales quando estiveres só,
convencido de que nunca te vou compreender,
rasgar-te papéis importantes,
extraviar adornos de valor.
Quero ser uma gata para de noite subir aos telhados
e ouvir-te desesperado a chamar-me:
Miau, miau, miau, miau...
Zoé Valdéz
__________
NÃO É QUE MORRA DE AMOR, MORRO DE TI
Morro de ti, amor, de amor de ti,
da urgência da minha pele de ti,
da minha alma de ti e da minha boca
e do insuportável que sou sem ti.
Morro de ti e morro de mim, morro de ambos,
de nós, desse,
desgarrado, partido,
me morro, te morro, nos morremos.
Morremos no meu quarto em que estou só,
na minha cama em que faltas,
na rua onde o meu braço vai vazio,
no cinema e nos parques, nos eléctricos,
nos lugares onde o meu ombro serve de almofada à tua cabeça
e a minha mão a tua mão
e tudo isso te sei como eu mesmo.
Morremos no sítio que emprestei ao ar
para que estejas fora de mim
e no lugar onde o ar se acaba
quando te deito a minha pele por cima
e nos conhecemos em nós, separados do mundo,
ditosa, penetrada e também interminável.
Morremos, sabemo-lo, ignoram-no, nos morremos
entre os dois, agora, separados
de um para o outro, diariamente,
caindo-nos em múltiplas estátuas,
em gestos que não vemos
em nossas mãos que nos necessitam.
Nos morremos amor, morro em teu ventre
que não mordo nem beijo,
nas tuas coxas dulcíssimas e vivas
na tua carne sem fim, morro de máscaras
de triângulos obscuros e incessantes.
Morro do meu corpo e do teu corpo,
de nossa morte, amor, morro, morremos
no poço do amor a todas as horas,
inconsolável, aos gritos,
dentro de mim, quero dizer, te chamo,
te chamam os que nascem, os que vêm
de trás, de ti, os que a ti chegam.
Nos morremos, amor, e nada fazemos
senão morrermos mais, hora após hora,
e escrevermos e falarmos e morrermos.
Jaime Sabines
__________
QUE PENA, ÉRAMOS UMA INVENÇÃO TÃO BOA
Eles amputaram
As tuas coxas das minhas ancas.
Tanto quanto sei
São todos cirurgiões. Todos eles.
As tuas coxas das minhas ancas.
Tanto quanto sei
São todos cirurgiões. Todos eles.
Eles desmantelaram-nos
Um ao outro
Tanto quanto sei
São todos engenheiros. Todos eles.
Um ao outro
Tanto quanto sei
São todos engenheiros. Todos eles.
Que pena. Éramos uma invenção
Tão boa e tão amável.
Um aeroplano feito de um homem e de uma mulher.
Com asas e tudo.
Pairávamos ligeiramente por cima da terra.
Tão boa e tão amável.
Um aeroplano feito de um homem e de uma mulher.
Com asas e tudo.
Pairávamos ligeiramente por cima da terra.
Até voávamos um pouco.
Yehuda Amichai
__________
NÃO ME IMPORTA NADA...
Não me importa nada que as mulheres tenham seios como magnólias ou como
figos secos; uma pele de pêssego ou de lixa. Não dou nenhuma
importância, ao facto de que amanheçam com um hálito afrodisíaco ou com
um hálito insecticida. Sou perfeitamente capaz de suportar um nariz que
ganharia o primeiro prémio numa exposição de cenouras; mas isso sim - e
nisso sou irredutível — não lhes perdoo, sob nenhum pretexto, que não
saibam voar. Se não sabem voar perdem o tempo as que pretendem
seduzir-me!
Esta foi – e não outra, a razão porque me apaixonei tão loucamente por Maria Luísa.
Que me importavam os seus lábios entalhados e os seus ciúmes sulfurosos? Que me importavam as suas extremidades de palmípede e os seus olhares de prognóstico reservado?
Maria Luísa era uma verdadeira pluma!
Desde o amanhecer voava do quarto até à cozinha, voava da sala de jantar à dispensa. Voando me preparava o banho, a camisa. Voando fazia as compras, as suas canseiras…
Com que impaciência eu esperava que voltasse, voando de algum passeio pelos arredores! Ali longe, perdido entre as nuvens, um pequeno ponto rosado. "Maria Luísa! Maria Luísa!"... e em poucos segundos, já me abraçava com as suas pernas de pluma, para levar-me voando a qualquer parte.
Durante quilómetros de silêncio planeávamos uma carícia que nos aproximava do paraíso; durante horas inteiras aninhávamo-nos numa nuvem, como os anjos, e de repente, em saca-rolhas, em folha morta, a aterragem forçada de um espasmo.
Que delícia a de ter uma mulher tão leve…, ainda que nos faça ver, de vez em quando as estrelas! Que voluptuosidade a de passarem-se os dias entre as nuvens… a de passar-se as noites de um só voo!
Depois de conhecer uma etérea, pode-nos brindar com alguma classe de atractivos uma mulher terrestre? É verdade que não há diferença substancial entre viver com uma vaca ou com uma mulher que tenha as nádegas a setenta e oito centímetros do solo?
Eu, pelo menos, sou incapaz de compreender a sedução de uma mulher pedestre, e por mais empenho que ponha em concebê-lo, não me é possível nem tão pouco imaginar que possa fazer-se amor a não ser voando.
Esta foi – e não outra, a razão porque me apaixonei tão loucamente por Maria Luísa.
Que me importavam os seus lábios entalhados e os seus ciúmes sulfurosos? Que me importavam as suas extremidades de palmípede e os seus olhares de prognóstico reservado?
Maria Luísa era uma verdadeira pluma!
Desde o amanhecer voava do quarto até à cozinha, voava da sala de jantar à dispensa. Voando me preparava o banho, a camisa. Voando fazia as compras, as suas canseiras…
Com que impaciência eu esperava que voltasse, voando de algum passeio pelos arredores! Ali longe, perdido entre as nuvens, um pequeno ponto rosado. "Maria Luísa! Maria Luísa!"... e em poucos segundos, já me abraçava com as suas pernas de pluma, para levar-me voando a qualquer parte.
Durante quilómetros de silêncio planeávamos uma carícia que nos aproximava do paraíso; durante horas inteiras aninhávamo-nos numa nuvem, como os anjos, e de repente, em saca-rolhas, em folha morta, a aterragem forçada de um espasmo.
Que delícia a de ter uma mulher tão leve…, ainda que nos faça ver, de vez em quando as estrelas! Que voluptuosidade a de passarem-se os dias entre as nuvens… a de passar-se as noites de um só voo!
Depois de conhecer uma etérea, pode-nos brindar com alguma classe de atractivos uma mulher terrestre? É verdade que não há diferença substancial entre viver com uma vaca ou com uma mulher que tenha as nádegas a setenta e oito centímetros do solo?
Eu, pelo menos, sou incapaz de compreender a sedução de uma mulher pedestre, e por mais empenho que ponha em concebê-lo, não me é possível nem tão pouco imaginar que possa fazer-se amor a não ser voando.
Oliverio Girondo
__________
CONTA-MO OUTRA VEZ
Conta-mo outra vez: é tão bonito
que não me canso nunca de escutá-lo.
Repete-me outra vez que o casal
do conto foi feliz até à morte,
que ela não lhe foi infiel, que a ele nem sequer
lhe ocorreu enganá-la. E não te esqueças
de que, apesar do tempo e dos problemas,
continuavam beijando-se cada noite.
Conta-mo mil vezes, por favor:
é a história mais bela que conheço.
Amalia Bautista
__________
MÃOS CRISPADAS SOB...
As mãos crispadas sob a manta escura...
«Porque estás hoje tão pálida?»
- Porque fiz com que o meu amor,
partisse cheio de amargura.
Nunca esquecerei. Saíu a cambalear,
a boca crispada, desolado...
Desci as escadas a correr,
até o conseguir apanhar.
Ofegante, gritei. «Era tudo a brincar,
não me deixes ou morro de dor.»
Ele sorriu calma e terrivelmente,
e disse : «Porque não sais da chuva, meu amor?»
Anna Akhmátova
«Porque estás hoje tão pálida?»
- Porque fiz com que o meu amor,
partisse cheio de amargura.
Nunca esquecerei. Saíu a cambalear,
a boca crispada, desolado...
Desci as escadas a correr,
até o conseguir apanhar.
Ofegante, gritei. «Era tudo a brincar,
não me deixes ou morro de dor.»
Ele sorriu calma e terrivelmente,
e disse : «Porque não sais da chuva, meu amor?»
Anna Akhmátova
__________
POEMA XX
Posso escrever os versos mais tristes esta noite
Escrever por exemplo:
A noite está fria e tiritam, azuis, os astros à distância
Gira o vento da noite pelo céu e canta
Posso escrever os versos mais tristes esta noite
Eu a quiz e por vezes ela também me quiz
Em noites como esta, apertei-a em meus braços
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito
Ela me quiz e as vezes eu também a queria
Como não ter amado seus grandes olhos fixos ?
Posso escrever os versos mais lindos esta noite
Pensar que não a tenho
Sentir que já a perdi
Ouvir a noite imensa mais profunda sem ela
E cai o verso na alma como orvalho no trigo
Que importa se não pode o meu amor guardá-la ?
A noite está estrelada e ela não está comigo
Isso é tudo
A distância alguém canta. A distância
Minha alma se exaspera por havê-la perdido
Para tê-la mais perto meu olhar a procura
Meu coração procura-a, ela não está comigo
A mesma noite faz brancas as mesmas árvores
Já não somos os mesmos que antes havíamos sido
Já não a quero, é certo
Porém quanto a queria !
A minha voz no vento ia tocar-lhe o ouvido
De outro. será de outro
Como antes de meus beijos
Sua voz, seu corpo claro, seus olhos infinitos
Já não a quero, é certo,
Porém talvez a queira
Ah ! é tão curto o amor, tão demorado o olvido
Porque em noites como esta
Eu a apertei em meus braços,
Minha alma se exaspera por havê-la perdido
Mesmo que seja a última esta dor que me causa
E estes versos os últimos que eu lhe tenha escrito.
Pablo Neruda
__________
TU CHAMAS-ME, AMOR, EU APANHO UM TÁXI
Tu chamas-me, amor, eu apanho um táxi,
cruzo a desmedida realidade
de fevereiro para ver-te,
o mundo transitório que me oferece
no assento de trás
uma oculta abobada de sonhos,
luzes intermitentes como conversas,
letreiros acesos na brisa,
que não são destino,
mas que estão escritos por cima de nós.
Eu sei que as tuas palavras não terão
esse tom luxuoso, que os ares
inquietos do teu cabelo
guardarão a nostalgia artificial
do sótão sem luz onde me esperas,
e que por fim de manhã
ao acordar-te,
entre esquecimentos a meias e detalhes
fora de contexto,
terás piedade ou medo de ti mesma,
vergonha ou dignidade, incerteza
e talvez o luxurioso mal-estar,
o golpe que nos deixam
as histórias contadas numa noite de insónia.
Mas também sabemos que seria
pior e mais custoso
levá-las a casa, não esconder o seu cadáver
no fumo dum bar.
Eu venho sem idiomas desde a minha solidão,
e sem idiomas vou até à tua.
Não há nada a dizer,
mas suponho
que falaremos nus sobre isto,
pouco depois, tirando-lhe importância,
avivando os ritmos do passado,
as coisas que estão longe
e que já não nos doem.
Luis Garcia Montero
Sem comentários :
Enviar um comentário