segunda-feira, 30 de maio de 2016


ESCREVER DESENHAR INSCREVER

Sete vezes a realidade
Sete vezes sete vezes a verdade.

Nós eramos dois e acabávamos de viver
Um dia de amor solarento
Abraçados junto ao nosso sol
Víamos a vida inteira inteiramente

Caída a noite ficamos sem sombra
A brunir o ouro do sangue meu e teu
Éramos dois no cerne do único tesouro
Cuja luz não adormece nunca nem jamais

A névoa mistura-se com a luz
Própria à verdura da treva e do obscuro
E tu deitas o tépido da tua carne
Aos meus apetites de ti obstinados

Cobres-te e iluminas-te
Cais no sono sono e sais do sono
E as estações perduram fiéis à sua orbita

Constróis uma casa
E teu coração amadurece
Como um leito como um fruto

E teu corpo dentro se refugia
E teus sonhos nela se prolongam
É a casa dos ternos dias

E dos beijos que se dão à noite.

As vagas do rio
A expansão do céu
O vento a folha a casa
O olhar a fala
E o facto de te amar
Tudo entrou em movimento.

Uma boa notícia
Vai chegar esta manhã
Tu sonhaste comigo.

Eu queria associar o nosso amor tão só
Aos lugares mais populosos do mundo
Possa ele abrir lugar
Aos que se amam como nós
Numerosos e tão raros.

Pego-me com o coração zango-me com o corpo
Mas não faço mal àquela que adoro.

II

Não há nada mais transparente do que o amor
Deitado como morto na sua ilusão
Tenso e erecto na sua verdade.

Nascer estando a olhar cada entardecer
Dormir surdo encostado ao mal
Sonhar sem se colocar em causa.

O caminhar plúmbeo das lágrimas
Sobre as grandes pedras e o nosso júbilo
Pelas folhas verdes que vemos no bosque.

Eu sou um animal estranho
Falo-te com as orelhas que tenho
Com a voz que falo estudo e te entendo.

Corredor do evidente-opaco
Ser ou sonhar que se é
Sobreviver a si mesmo ou voltar a nascer.

Na primeira vez que te vejo dou-te um beijo
Na vez seguinte tratas-me por tu
E para sempre dou-te a minha fé.

Nada tenho a ganhar
Amo-te demasiado para te perder
Amo-te e não é a brincar.

III

Sonhei com a primavera e a primavera perdeu brilho
No verão também brilho o gume no fruto

Eu poderia ter pedido as cores
Que me impunham que fosse eu próprio e o que gosto

Eu poderia ter perdido o poder
De estar a par do peso do claro e do obscuro

Uma flor esplende no meio da primavera
Murcha a chuva gasta e passo ao verão

Arderam as searas e nós renascer
A flor e o fruto lançam-se de memória no futuro

Pude passar três anos e milhares de anos
A viver como vivem os sóis poentes.

Mas agora eu me ergo porque tu te ergueste
Rosa de fogo sobre as cinzas do fogo
E o meu amor é incomparavelmente e maior do que o meu passado.

IV

Ser como um miúdo como tu és
Grande como uma criança
E tens juízo e quanto te armas em crescida
E fazes cair o céu sobre a mesa
Com um movimento mais ensaiado do que o das estações
Quando prestes tudo a criar tu decides imitar

Quando me fazer rir de riso
Com um riso de amorosa piedade.

Vieste até mim pelos caminhos da infância
Erva e andorinha grave como te abeiraste

O meio da noite das manhãs manchado de aurora como estava
O crepúsculo destapava prudentemente a sombra

Para afugentar as más imagens.

Eu entre na dança
Da tua vida apesar das diferenças de passo

Eu dou-te o compasso de viver
E o de ter vivido

Tu dás-me o compasso de ser
Sendo uma criança comigo.

Mesmo que o inverno aguce os ramos
Para deitar a unha à morte sonhada
Mesmo que colheitas pavorosas
Entupam a seiva dos rios
Mesmo que o grande frio discipline a carne
Tu só me prometes passos de jovem.

E eu sei que é meu dever amar-te
O inverno e o verão se cruzando no caminho
A folha sem viço num banho de azul se acaba ir.

Eu respiro e me acrescento outro
Com o ar que corre para a primavera
Desertos e ruínas mau tempo
Purificam a aurora das colheitas.

Eu amo-te tenho nas vértebras
A emancipação da trevas.

V

Da dor do fundo das lágrimas
Surgia um pássaro sem asas
Surgia um barco vazio depois.

De uma mão segura que segurava
Uma outra confiante caíam sementes
Uma única flor irradiava.

O sangue desenhava um coração
Que te desenhava um corpo teu
Que desposava um coração o meu.

Existem pedintes queixumes esmolas
Existem segredos mentiras traidores
E mais perto e mais distante existe o que confessamos.

Um rosto que mal se vê no topo de um corpo imenso
Um corpo reduzido ao invisível por um rosto ardente
Amor não pesa tanto como de amar desejo.

Dar de beber e dar de comer
Àquelas crianças que imaginamos
Só nos têm como sorte.

Quando o sol o amor equilibra as nossas armas
Podemos ver-nos viver
A seiva inflama-se no nosso espelho de olhar.

VI

Amanhã muito cedo teremos de nos levantar
Ainda de noite sob o efeito de uma mágoa infantil

Na hora escura erguer-se para a ver esclarecida.

Tu foges contra o vento com a saia arregaçada
Os cabelos em desalinho sob a chuva furiosa

O céu está inundado a terra enfraquecida.

Descoberta de um deserto
Onde a luz é tímida.

E o horizonte foge contigo contra o vento
Foge comigo fechando-nos um ao outro.

Andar sem fim é como ir longe
Chove sem parar depressa irá mudar o tempo.

Nós vivemos de bem mais longe me busca um do outro
Sem esperança de maior num grande sol e num pão quente

E todavia a vaga sobre vaga das colheitas queimava o lado mau do tempo.

Uma única gota de água
Multiplicava-lhe auras e arco-íris

No anel de uma aliança.

VII

Sob o sol que é um só o favo de mel da tua pele
Dourou de um único mel meu céu que despertava.

Mulher és tu
Eu sou um apaixonado

Pela carícia saímos da nossa infância
Mas basta uma só palavra de amor e renascemos.

Um beijo sereno na noite
As sombras mais pesadas desaparecem.

Mesmo sol idêntico despertar
Dividimos entre nós os sonhos e o sol.

Diversos carinhos diversos coloridos
Tu nunca me és estranha coração meu

Fala eu sou o eco de tudo o que tu falas
No mais alto do meu muro tu voltas a encontrar o teu ninho.


Paul Éluard

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